Tratamento da hanseníase precisa melhorar muito, diz relatora da ONU após visita ao Pará

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Panorama estadual ainda está aquém do ideal, apesar de alguns avanços, diz coordenador do movimento de apoio a pessoas com hanseníase

Alice Cruz, relatora da Organização das Nações Unidas (ONU), esteve no Pará e em alguns outros estados brasileiros. Ao final das visitas, constatou: pessoas com hanseníase ainda vivem segregadas da sociedade e o tratamento precisa melhorar muito. Historicamente, os registros oficiais de casos da doença vêm diminuindo no estado. Por outro lado, entidades de apoio falam em subnotificação elevada.

Para Alice Cruz, algumas das piores situações de pessoas com hanseníase estão na Amazônia Legal. Ainda assim, considera que o Brasil é uma referência por ter criado um marco legal antidiscriminatório. Só que precisa pôr em prática políticas públicas efetivas para zerar as disparidades sociais. Principalmente a segregação que pacientes ainda vivem, quando moram em colônias.

O Pará foi escolhido para visitação devido aos altos registros da doença no estado. A agenda da relatora da ONU foi organizada por José Picanço, coordenador do Movimento de Reintegração de Pessoas Atingidas pela Hanseníase no Pará (Morhan-PA) e membro da Comissão Nacional de Filhos Separados pelo Isolamento Compulsório de PessoAs com Hanseníase.

Quanto ao estado, o coordenador do Morhan estadual aponta que há uma média de 2,4 mil casos por ano. No entanto, acredita que a subnotificação oculte o triplo de casos. Pesquisa de Cláudio Salgado, do Laboratório de Dermato-Imunologia (LDI), em Marituba, prevê que se o Pará não melhorar a estrutura de atendimento e tratamento, a situação pode chegar a níveis alarmantes, como no passado, e ir a 20 mil casos anuais. A maioria serão crianças.

“Estamos encontrando crianças já com sequelas irreversíveis da doença. Isso é um crime! Nossos principais desafios hoje são estimular os exames de contato; treinar pessoal para atendimento humanizado — muitos profissionais de saúde não querem atender por preconceito — e fiscalização desse atendimento; aumenta o número de cirurgias reparadoras; mais campanhas informativas; e aumentar a liberação de próteses e órteses para pessoas com sequelas”, pontua Picanço.

 

Sespa garante redução do número de casos e elevada taxa de cura

 

Questionada sobre as declarações da relatora da ONU, a Secretaria de Estado de Saúde do Pará (Sespa) não comentou as falas. A resposta se focou em dizer que o tratamento da hanseníase no Pará tem índices de cura superiores a 70% e de abandono do tratamento inferiores a 10%. Desde 2015, o número de casos vem caindo sequencialmente.

Pelos parâmetros do Ministério da Saúde, o Pará ocupa o quarto lugar em incidência da doença, com 27,70 casos por cada 100 mil habitantes notificados em 2018, ficando atrás do Maranhão, Mato Grosso e Tocantins.

“Apesar da diminuição de casos e da eficácia do tratamento contra a hanseníase, essa classificação requer das Secretarias Municipais de Saúde a intensificação contínua das ações preventivas à doença junto à população”, destacou a Sespa na nota.

A Coordenação Estadual de Controle da Hanseníase aponta que o número de casos da doença no Pará tem tido queda: 2015, com 3.338 casos; 2016 com 2.918; 2017 com 2.561 e 2018 com 2.314 ocorrências. Os dados mais atualizados apontam ainda que, neste ano, já foram confirmados 36 casos.

Em 2017, Belém, Ananindeua e Marabá apresentaram o maior número de casos da doença. No ano seguinte, Parauapebas foi agregada ao ranking. Este ano, os casos confirmados foram oriundos de Castanhal, Novo Progresso e Altamira.